Eduardo Riedel: do gestor ao líder político em MS

Poucos líderes políticos em Mato Grosso do Sul conseguiram construir uma influência tão duradoura quanto Reinaldo Azambuja. Em três décadas de vida pública, ele deixou de ser prefeito de Maracaju para se tornar deputado estadual, deputado federal e governador por dois mandatos. Seu maior ativo político, no entanto, pode ter sido construir um grupo capaz de sobreviver ao fim de seu governo.
A eleição de Eduardo Riedel, em 2022, representou um marco na política estadual. Pela primeira vez, um governador conseguiu transferir seu capital político a um sucessor sem trajetória eleitoral própria, rompendo a tradição de alternância que marcou o comando do Estado. Riedel chegou ao governo pela credibilidade como gestor e pela força do projeto político liderado por Reinaldo, mais do que por um patrimônio eleitoral individual.
Quatro anos depois, o cenário apresenta uma inversão. Eduardo Riedel se consolidou administrativamente. Ele mantém índices favoráveis de aprovação, conduz um governo de perfil técnico, dialoga com diferentes setores econômicos e, se o ambiente político permanecer semelhante, tende a disputar a reeleição em posição confortável. Força administrativa, no entanto, não significa liderança política.
Enquanto Reinaldo continua exercendo o papel de articulador das alianças, das negociações partidárias e da composição das chapas, Riedel ainda dá passos cautelosos na formação de um grupo próprio. Ao longo do mandato, ele promoveu mudanças no primeiro escalão, ampliou o espaço para auxiliares de sua confiança e começou a imprimir características próprias à administração. São movimentos de quem busca consolidar identidade política sem romper com o projeto que o levou ao governo.
Construir um grupo político exige mais do que montar uma equipe de governo. Significa formar lideranças, criar vínculos de fidelidade, projetar candidatos competitivos e produzir uma geração de políticos cuja principal referência seja o governador, e não seu antecessor. Os sinais ainda são discretos. Entre os nomes mais próximos de Riedel para a disputa eleitoral aparecem figuras como Viviane Luiza da Silva, cuja trajetória está ligada ao governador. Já Jaime Verruck, embora integre o núcleo estratégico do governo desde a gestão anterior, construiu sua carreira antes de Riedel, vindo do Sistema S e integrando os governos de Reinaldo Azambuja desde o início. Sua eventual candidatura tende a representar a continuidade do projeto governista, mais do que a consolidação de um grupo exclusivamente riedelista.
Essa diferença é importante. Reinaldo construiu uma base pessoal, formada ao longo de décadas, capaz de atravessar partidos e governos. Sua influência alcança prefeitos, deputados, lideranças regionais e diferentes legendas. Mesmo fora do Executivo, ele continua ocupando posição central nas decisões estratégicas do grupo político.
Riedel governa sustentado por essa estrutura. Ainda que avance na construção de sua própria identidade, sua liderança política continua compartilhando espaço com a figura do antecessor. Isso não representa um problema para a governabilidade. A convivência entre os dois tem garantido estabilidade ao bloco governista. O desafio aparece no horizonte. Se conquistar um segundo mandato, Riedel precisará decidir se continuará administrando um grupo cuja principal liderança política permanece sendo Reinaldo Azambuja ou se utilizará os próximos anos para formar uma nova geração de aliados identificados diretamente com seu projeto.
A história mostra que governos são temporários. Grupos políticos duradouros são construídos pela capacidade de produzir sucessores, distribuir protagonismo e criar novas lideranças. Reinaldo demonstrou essa habilidade ao eleger um sucessor improvável. Resta saber se Eduardo Riedel conseguirá repetir a fórmula ou permanecerá como o principal gestor de um projeto político cuja liderança continua tendo outro comandante.


