Pai de menino retido após amigo se queimar desabafa: 'Estou arrasado

O pai de um menino de 12 anos, retido na Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) Cepol, em Campo Grande, disse estar arrasado após o filho se envolver em um acidente que deixou um amigo, de 11 anos, com 80% do corpo queimado. O caso ocorreu no Bairro Vila Popular e a vítima está internada em estado grave, intubada na UTI (Unidade de Terapia Intensiva).
Visivelmente abalado e sem dormir, o trabalhador de 34 anos afirmou não saber o motivo da retenção do filho. “Não sei por qual motivo deixaram ele retido. Querendo ou não, foi uma brincadeira e teve um acidente. Eu deixo ele em casa porque já tem 12 anos, mas nunca imaginei que ia acontecer uma coisa dessas. Agora estou arrasado e me preocupo mais com o menino que está internado, porque ele ainda é uma criança”, lamentou.
Divorciado da mãe da criança, o pai contou que o garoto estuda pela manhã e, à tarde, fica sob os cuidados de uma babá enquanto ele trabalha. “Na hora do almoço eu vou em casa e depois volto pro trabalho. A babá fica de olho nele, mas não consegue ver toda hora porque cuida de outras crianças também”, relatou. Ele soube do ocorrido por meio de um vizinho, que ligou avisando sobre a presença de quatro viaturas da Polícia Militar em sua porta.
De acordo com o boletim de ocorrência, a PM foi acionada para ir até a UPA Santa Mônica, para onde o menino foi levado por uma vizinha. Antes de ser intubado, a vítima disse à assistente social que estava na casa do amigo e que, após uma discussão, o colega teria ateado fogo em seu corpo. No entanto, o garoto de 12 anos apresentou outra versão aos policiais: afirmou que a ideia de brincar com o combustível partiu do amigo e que ele chegou a alertar sobre o perigo.
O menino pegou um galão de 5 litros de álcool guardado no armário da cozinha e ambos foram para os fundos do quintal “riscar pedra”. Enquanto a vítima segurava a pedra, o colega despejava o líquido e usou um isqueiro. As chamas atingiram o galão, provocando uma explosão que projetou o líquido em chamas contra o corpo da vítima.
Em pânico, o garoto tentou ajudar o amigo, que correu para o banheiro e ligou o chuveiro, mas o fogo não apagou e a água do poço artesiano acabou. Os dois foram para a cozinha, onde o amigo encheu vasilhas na torneira da pia para apagar os focos de incêndio. O menino trocou de roupa com peças emprestadas e ficou deitado por cerca de 30 minutos antes de sair à rua para pedir socorro. Coletores de lixo que passavam pelo local viram o estado da criança e mobilizaram vizinhos, que acionaram um transporte por aplicativo para levá-lo à unidade de saúde.
A polícia registrou o caso como abandono de incapaz com resultado de lesão corporal de natureza grave e lesão corporal culposa. Como o garoto de 12 anos foi localizado sozinho e o Conselho Tutelar informou que não tinha disponibilidade para deslocar um conselheiro ao local, os policiais levaram o menino na viatura até o trabalho da mãe e contataram o pai por telefone.
O pai afirmou que ainda busca assistência jurídica para acompanhar o filho na audiência. “Parece que foram brincar de riscar pedra, pegaram o álcool e o menino que estava com o isqueiro na mão acabou ferido. Nesse momento, ainda estou atrás de advogado ou defensor público”, finalizou. O garoto retido deve passar por audiência na Vara da Infância e da Juventude para a definição de medidas socioeducativas ou de proteção. A vítima permanece internada na UTI da Santa Casa.


