
Em 15 de agosto de 2026, completam-se cinco anos desde a retomada de Cabul pelo Talibã. A data é um momento para fazer um balanço histórico, evitando duas simplificações: tratar o Afeganistão como se sua história começasse em 2021 e explicar sua realidade apenas pela religião ou pelo chamado “fundamentalismo islâmico”.
Antes dos últimos cinco anos, é preciso lembrar das sucessivas guerras, intervenções estrangeiras e violências que atravessaram o Afeganistão por décadas. Entre 1979 e 1989, o país viveu a ocupação pela antiga União Soviética e a resistência dos mujahidin, grupos de combatentes afegãos que lutaram contra as forças soviéticas. Em meio à Guerra Fria, parte desses grupos recebeu apoio financeiro, militar e logístico dos Estados Unidos, do Paquistão e da Arábia Saudita. O conflito deixou mortes, pobreza, deslocamentos e uma grave desestruturação social e política.
Os mujahidin não eram um movimento único, mas diferentes grupos que compartilhavam a oposição à presença soviética. Após a retirada da União Soviética e o colapso do governo afegão apoiado por Moscou, as disputas entre facções levaram a uma guerra civil. Foi nesse cenário que surgiu o Talibã, na década de 1990. A palavra taliban significa “estudantes” e remete à origem de parte de seus integrantes em escolas religiosas, as madrasas, muitas no Paquistão. O movimento se apresentou como uma força para restaurar a ordem e, em 1996, conquistou Cabul, estabelecendo o primeiro Emirado Islâmico do Afeganistão.
Após os atentados de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos lideraram uma invasão ao Afeganistão sob a justificativa da “Guerra ao Terror”, derrubando o primeiro governo Talibã. Entre 2001 e 2021, foram vinte anos de presença militar e intervenção internacional, com um Estado afegão dependente de recursos externos. Em 2020, o Acordo de Doha, entre Estados Unidos e Talibã, estabeleceu as bases para a retirada das tropas. No ano seguinte, o governo de Ashraf Ghani colapsou e, em 15 de agosto de 2021, o Talibã entrou novamente em Cabul.
O período entre 2021 e 2026 marca a consolidação do segundo Emirado Islâmico. Desde então, o Talibã administra ministérios, fronteiras, impostos, forças de segurança e tribunais, além de manter relações diplomáticas com diferentes países. Na prática, governa o Afeganistão, mas o reconhecimento internacional permanece limitado. A ONU ainda se refere ao governo Talibã como autoridade de facto. Exercer controle sobre um território e desempenhar funções de Estado não significa ter pleno reconhecimento e legitimidade internacional.
Os últimos cinco anos também mostram um paradoxo. O fim da guerra entre o Talibã e as forças internacionais reduziu as mortes de civis relacionadas ao conflito armado, embora organizações como o Estado Islâmico – Província de Khorasan (ISIS-K) continuem realizando atentados. Para parte da população, o período pós-2021 significou menos exposição à guerra cotidiana e, ao mesmo tempo, maior controle político, moral e social. É preciso distinguir segurança física de liberdade política e garantia de direitos.
A situação das mulheres é onde esse controle fica mais evidente. Desde 2021, medidas restringiram o acesso de mulheres e meninas à educação, ao trabalho, à circulação e à participação na vida pública. Meninas estão impedidas de frequentar o ensino secundário e mulheres foram excluídas das universidades. Essas restrições passaram a integrar as estruturas políticas, jurídicas e administrativas do Emirado.
Reduzir essa situação à afirmação de que “o Islã oprime as mulheres” é uma leitura simplificadora. As políticas do Talibã não representam o conjunto da tradição islâmica. O movimento seleciona e institucionaliza determinadas leituras religiosas para fundamentar suas políticas de gênero. Essa perspectiva não é consenso entre os muçulmanos e pode ser confrontada com princípios da própria tradição, como a valorização do conhecimento, da justiça (‘adl) e da dignidade humana.
Desde os primeiros séculos do Islã, mulheres participaram da produção e transmissão do conhecimento religioso. Aisha bint Abi Bakr, esposa do Profeta Muhammad, é reconhecida como uma das principais autoridades intelectuais da primeira comunidade muçulmana. Ela transmitiu numerosos hadiths e foi procurada por homens e mulheres para esclarecer questões religiosas e jurídicas. A presença feminina no campo do conhecimento não é estranha à tradição islâmica.
O Alcorão dirige obrigações morais e espirituais a homens e mulheres, apresentando ambos como responsáveis por suas ações. As restrições do Talibã são resultado de uma interpretação religiosa específica, atravessada por relações de poder e disputas políticas. Essas medidas são questionadas por estudiosos e comunidades muçulmanas em diferentes partes do mundo.
As mulheres afegãs não podem ser vistas apenas como vítimas passivas. Elas têm construído formas de resistência por meio de redes de educação informal, manifestações, produção de conhecimento e ativismo dentro e fora do país. Mais do que falar por essas mulheres, é necessário escutá-las e reconhecer suas próprias formas de organização. O caminho é construir redes de solidariedade, não de tutela.
Na economia, o Afeganistão chegou a 2021 dependente da ajuda internacional. Com a retirada das forças estrangeiras, o país enfrentou redução da ajuda externa, sanções, congelamento de ativos, desemprego e problemas estruturais. A pobreza e a insegurança alimentar continuam atingindo parte expressiva da população. A crise econômica não pode ser atribuída apenas ao Talibã, mas é resultado de décadas de guerra e intervenção estrangeira. As políticas do atual governo, como as restrições à educação e ao trabalho das mulheres, também aprofundam desigualdades.
Na geopolítica regional, o caso do Paquistão é significativo. O país foi um dos principais atores associados ao fortalecimento do Talibã, mas as relações entre Cabul e Islamabad ficaram tensas desde 2021. O Paquistão acusa integrantes do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP) de usar o território afegão para ataques, acusação rejeitada pelas autoridades afegãs. O Talibã contemporâneo não é um movimento insurgente subordinado a interesses externos, mas uma autoridade política que controla o território e busca relações próprias.
Compreender o Afeganistão exige enfrentar contradições. Menos guerra não significou mais direitos; controle territorial não produziu reconhecimento internacional; maior autonomia política não eliminou a vulnerabilidade econômica e humanitária. Denunciar as violações de direitos atuais é necessário, mas não pode apagar a responsabilidade histórica dos Estados Unidos, da OTAN, do Paquistão, da antiga União Soviética e de outros atores nas condições que contribuíram para o segundo Emirado Islâmico.
O desafio é olhar criticamente para o Talibã sem transformar o país em sinônimo do movimento, denunciar as violações sem atribuí-las genericamente ao Islã e analisar o presente sem apagar mais de quatro décadas de guerras e intervenções que ajudaram a produzi-lo.
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