
Okinawa, um antigo reino chamado “Ryukyu” anexado pelo Japão no século XIX, foi transformado em centro de operações militares dos Estados Unidos no Pacífico. Oitenta anos após a última grande guerra global, a região abriga 70% das bases militares norte-americanas no Japão, embora ocupe apenas 0,6% do território japonês. A população local vive sob constante estado de alerta, sem calma ou tranquilidade.
Três soldados norte-americanos de uma base em Okinawa, um ano depois do fim da guerra, são o ponto de partida da história. Durante o tempo livre, eles percorriam as plantações de uma aldeia em um Jeep, aterrorizando e estuprando mulheres. As autoridades da base se recusaram a puni-los. Os moradores de Okinawa então decidiram fazer justiça com as próprias mãos e montaram uma emboscada.
O único grande confronto bélico em território japonês ocorreu no arquipélago. Entre abril e junho de 1945, mais de 100 mil civis de Okinawa morreram ou se mataram com granadas entregues pelo exército imperial, que ordenou seu uso para evitar que fossem feitos prisioneiros pelos norte-americanos. Houve suicídios forçados e civis usados como escudos humanos para atrasar a invasão das ilhas principais do Japão. A maioria dos sobreviventes foi evacuada à força para ilhas onde a malária era comum.
A violência sexual contra mulheres persiste. De acordo com um artigo de 2024 do jornal militar norte-americano “Stars and Stripes”, o pessoal das bases militares está envolvido em pelo menos 140 casos de estupro atualmente.
Okinawa já foi uma das regiões com a maior taxa de centenários do mundo. O hibisco e a fruta cítrica “shikuwasa” eram apontados como fatores para a longevidade, apesar de uma história de sofrimento. No entanto, a ocidentalização da dieta e dos costumes mudou esse cenário. Hoje, Okinawa ocupa apenas o 36º lugar em expectativa de vida entre as 47 regiões japonesas.
As forças de ocupação dos EUA controlaram o Japão a partir de 1945, por sete anos. Elas saíram do Japão, mas não de Okinawa. Inventaram um conceito chamado “soberania residual” para a região, construíram bases, promoveram o uso do dólar e aboliram o passaporte japonês para os habitantes do arquipélago. Atualmente, há um empate entre os que querem se separar do Japão e dos EUA e aqueles que desejam manter a situação atual.
Esses últimos afirmam que Okinawa está à mercê de duas grandes potências: arrasada pelos EUA e traída pelo Japão. A região é a mais preocupada com a crise entre Japão e China, sendo considerada o alvo número um. Yonaguni, uma das ilhas de Okinawa, fica a apenas 110 quilômetros da China. Para aumentar o temor, Tóquio instalará ali um sistema de mísseis fabricados pela Mitsubishi, apontados para a China. Em Okinawa, os ventos e as pedras contam uma história de imenso poder e de maus-tratos.


