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Mães atípicas e a exaustão do cuidado sem pausa

Na sala de espera do CAPSi (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil) do bairro Monte Castelo, em Campo Grande, o tempo se transforma em acolhimento e troca. Enquanto os filhos participam das atividades terapêuticas, as mães se reúnem para conversar, compartilhar experiências e se sustentar emocionalmente.

Em meio a risadas, silêncios emocionados e olhos marejados, elas contam que ser mãe atípica é viver em estado permanente de atenção. A rotina envolve consultas, terapias, crises e a tentativa de manter a vida minimamente organizada. Todas afirmam que nunca lhes falta disposição para fazer tudo pelos filhos.

Marisa Marinho, de 48 anos, é apontada como a mais falante da turma. Mãe de Vitória, de 13 anos, ela conta que só conseguiu o diagnóstico de autismo quando a menina já tinha entre 7 e 8 anos. Antes disso, foram anos de incerteza. “Eu via que alguma coisa tinha, mas não sabia o que era”, lembra.

A mãe observava que Vitória andava nas pontas dos pés, tinha seletividade alimentar, separava toda a comida no prato e apresentava dificuldades comportamentais na escola. Em casa, segundo Marisa, Vitória se mordia, rasgava roupas e passava noites sem dormir. “Era terrível”, resume a mãe ao ressaltar que o acolhimento no CAPSi marcou uma virada na vida da família. “Aqui me abraçaram. A equipe deu todo o suporte”, diz.

Quando o diagnóstico veio, a rotina da família mudou completamente. Marisa afirma que precisou deixar o trabalho para se dedicar integralmente à filha, diagnosticada com autismo nível 3 de suporte. “Era só eu para tudo. Meu marido trabalhava e eu precisava correr com ela”, conta. Hoje, sete anos depois, Vitória desenvolveu autonomia, avançou nas terapias e surpreende pela capacidade intelectual. A menina aprendeu várias línguas, já leu mais de 300 livros e pratica esportes como jiu-jitsu.

Mas o caminho cobrou seu preço. Marisa diz que, por anos, deixou de cuidar de si. “Se você não se cuida, você surta. E eu estava surtando”, admite. Só em 2025 conseguiu, pela primeira vez desde o nascimento da filha, fazer uma viagem.

A sobrecarga também faz parte da rotina de Thais Pamela dos Santos Barros, de 34 anos. Mãe de dois filhos neurodivergentes, ela precisou reorganizar a vida profissional. Mateus Augusto, de 12 anos, tem TDAH e TOD, e Yasmin Vitória, de 5 anos, também tem TDAH. Sem conseguir manter um emprego formal, Thais passou a trabalhar como motorista de aplicativo. O marido se reveza com ela nos cuidados com os dois. “A gente vai se adaptando para dar conta”, diz.

O diagnóstico de Mateus veio aos 4 anos. A mãe afirma que ele é hiperativo, tem dificuldade de controlar impulsos e já enfrentou problemas de socialização. Yasmin é agitada e tem dificuldade de concentração. “A escola reclama, a criança não para quieta”, lamenta Thais. Ela ressalta que o acompanhamento no CAPSi trouxe avanços. “Ele não tinha amizades, era sempre isolado”, recorda.

Ynarah Granze Oviedo, de 28 anos, é mãe solo de três filhos. O caçula, Asaf, de 7 anos, tem TDAH e TOD. Ela concilia os cuidados com o menino, a criação das duas filhas e a formação como Técnica de Enfermagem. A renda vem de benefícios sociais. Segundo a mãe, o filho tem comportamento agitado e dificuldade para lidar com limites. Ela relata que ele já evoluiu com o acompanhamento. “Ele melhorou demais. Hoje consegue lidar melhor com as emoções”, diz.

Ynarah lembra que em outros lugares o tratamento era individual e o menino não conseguia se relacionar. No CAPSi, a terapia em grupo fez o filho se tornar mais sociável. “Ele é apaixonado por esse lugar”, comemora. Ela também enfrenta o desafio de conscientizar a própria família sobre o transtorno do filho. “Eu não sou revoltada. Eu corro atrás”, afirma.

As três mulheres afirmam que ser mãe atípica transforma a forma de ver o mundo. “A gente começa a entender o mundo deles. Mas os outros não entendem o nosso mundo”, resume Ynarah.

Segundo a gerente da unidade, Ivanaide Martins de Souza, essas mulheres vivem em função dos filhos 24 horas por dia. Percebendo a sobrecarga, o CAPSi criou momentos de acolhimento para elas. Enquanto as crianças permanecem no atendimento, as mães participam de roda de conversa com a assistente social. Na semana do Dia das Mães, o CAPSi realizou uma tarde exclusiva para elas. Atualmente, o serviço atende cerca de 4 mil crianças e adolescentes.